Mostrando postagens com marcador Robert Barnett. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Robert Barnett. Mostrar todas as postagens

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

Entrevista: Robert Barnett sobre "Por quê os tibetanos estão se ateando fogo"

No início desta semana um monge tibetano tornou-se a 22a pessoa, nos últimos 12 meses, a cometer auto-imolação em protesto às regras do governo chinês no Tibete. Robert Barnett, diretor do Programa de Estudos Modernos do Tibete na Universidade de Columbia, diz que este é um novo tipo de protesto político dos tibetanos, que poderá se tornar uma forma contínua de dissidência, caso o governo chinês não alterare algumas das suas políticas na região.

Ásia Blog falou com Barnett por telefone.


Por que os monges e monjas decidiram usar esta forma particular de protesto contra o governo chinês?
As razões pelas quais optaram por este método de protesto não são exatamente claras. As pessoas dentro do Tibete, especialmente em áreas rurais, podem ocasionalmente acessar notícias de rádio em tibetano a partir de fontes externas, como a Voice of America e Radio Free Ásia, mas provavelmente conhecem pouco ou nada sobre a auto-imolação de um tunisiano no ano passado, muito menos sobre as auto-imolações vietnamitas há 50 anos atrás. Mas devem ter ouvido falar sobre as manifestações que levaram à Primavera Árabe, e isso pode ter incentivado as pessoas, de um modo geral, a ver o protesto popular como uma forma de trazer mudanças.

Mas eles podem ter escolhido esta forma de protestos, porque no ciclo anterior de instabilidade  no Tibete em 2008, quando ocorreram cerca de 150 manifestações de rua por grupos muito grandes, cerca de 20 desses incidentes formaram uma espiral em direção ao caos e violência. A violência permitiu que o governo chinês evitasse abordar as questões subjacentes e reclamações dos manifestantes. A auto-imolação pode estar sendo vista como uma forma de evitar a desvantagem de formas tradicionais de protestos de rua em grande escala: envia uma mensagem para o governo de uma maneira que os manifestantes esperam que não seja facilmente deixada de lado, porque não causa danos a outras pessoas ou bens, e não envolve agitação.

Os protestos em geral clamam por "liberdade" e pela autorização para que o Dalai Lama possa regressar ao Tibete. Parecem ter sido desencadeados por uma virada dramática na política em 1994, quando o Estado chinês decidiu centrar-se sobretudo em atacar o Dalai Lama, forçando os monges e monjas a denunciá-lo, e intensificar controles relativos aos mosteiros e à religião. Esta política foi implementada inicialmente na Região Autônoma do Tibete, que é a metade ocidental do planalto tibetano em torno de Lhasa, mas nos últimos 10 anos, foi sendo imposta, mosteiro por mosteiro, em toda a metade oriental do planalto, onde vive a maioria dos tibetanos e onde os protestos atuais estão ocorrendo. Essa política inclui programas de reeducação nos mosteiros, proibições de culto ao Dalai Lama, minimização do papel da língua tibetana nas escolas, incentivo à migração de chineses para as áreas tibetanas, e outras restrições. Ninguém sabe por que eles decidiram estender essa política para a região leste do Tibete, uma vez que até então se mantinham relaxados e pacíficos, desde 1970.

 Existe alguma tradição relativa a esse tipo específico de protesto na cultura budista?
A imprensa chinesa tem defendido que estes protestos violam os princípios
e regras budistas , mas na verdade, estão em forte ressonância com a tradição budista. Suicídio é evitado no budismo, se realizado por motivos pessoais, mas o auto-sacrifício por uma causa nobre é altamente respeitado. Existem muitas histórias sobre o Buda fazendo isso em vidas anteriores; a mais famosa é aquela em que ele se sacrifica, dando seu corpo para uma tigresa à beira da morte para que ela pudesse alimentar seus filhotes. Assim, um ato que é feito para o bem da comunidade é considerado nobre, especialmente se for feito por um membro do clero.

É por estes atos estarem sendo feitos por monges, monjas ou ex-monges, que tem sido tão difícil para o governo chinês desacreditar os manifestantes - o que seria muito diferente se  leigos estivessem envolvidos. O governo teve sucesso quase total em desacreditar cinco chineses, declarados pelo governo como sendo seguidores da seita Falun Gong, que reazlairam uma auto-imolação em massa em Pequim, em 2001: o evento foi apresentado como prova de que essas pessoas tinham sofrido lavagem cerebral e eram manipuladas pelo Falun Gong. Mas apesar de algumas tentativas por parte da imprensa chinesa de fazer isso com os monges e monjas tibetanos, esses esforços fracassaram, em grande parte por serem tão amplamente respeitados dentro da comunidade tibetana.

Por que as duas partes não conseguem encontrar uma base comum para governar o Tibete?

Uma maneira de entender a questão tibetano-chinesa é olhar a questão do seu status, se o Tibete deve ou não ser parte da China, ou, sendo uma parte da China, que grau de autonomia deveria ter. Esta é uma questão que remonta pelo menos 100 anos, quando o
exército chinês tentou pela primeira vez anexar o Tibete e integrá-lo ao território chinês. É algo que provavelmente levará muito tempo para ser resolvido.

Mas há uma segunda questão que é facilmente confundida com a primeira, que são as políticas que a China introduziu mais recentemente, em especial a decisão de 1994 de declarar o Dalai Lama como um inimigo, e outras questões que foram
ao mesmo tempo intensificadas, como a reeducação, o uso da linguagem, e  desenvolvimento econômico mais rápido. Há questões mais recentes emergindo agora, especialmente questões relacionadas com o ambiente, como o assentamento forçado de nômades e a mineração desenfreada. Como esses fatores secundários não estão gravados em pedra e estão constantemente assumindo novas formas, representam uma espécie de oportunidade para a China, e poderiam ser revertidos com bastante facilidade. Se fizessem isso, seria gerado algum alívio e teriam mais tempo para tentar resolver as principais questões referentes a autonomia e status. Não houve ainda sinal de qualquer movimento até o momento sobre estas questões secundárias. A China tem um sistema de liderança fraco e altamente conservador, baseado no consenso, o que torna muito difícil para os líderes chegar a um acordo sobre uma jogada ousada, relativa a uma questão fundamental de soberania e  orgulho nacionais, de modo que quaisquer concessões serão muito discretas.

Existe alguma previsão sobre quando estas auto-imolações chegariam ao fim?

A China se vê como tendo sido sempre generosa para os tibetanos, pelo menos desde o início de 1980, devido aos grandes programas de subsídios para impulsionar o desenvolvimento econômico em áreas tibetanas, e porque vê os protestos como iniciativas do Dalai Lama e exilados, destinadas a "dividir "a China, através da criação de um Tibete independente. Os exilados negam isso, mas ao mesmo tempo usam uma retórica nacionalista muito forte, como seria de se esperar. Assim, embora uma solução negociada entre as duas lideranças não possa ser descartada, parece improvável na sitaução atual.

Enquanto isso, os tibetanos orientais, cuja ira já foi despertada, são resolutos e de temperamento forte, com uma memória longa e amarga dos vários ataques chineses em suas regiões e mosteiros durante todo o século passado, e eles defendem seus valores fundamentais. Assim, as tensões atuais não vão desaparecer sem alguma concessão do Partido. Essa concessão não precisaria ser muito grande para que as pessoas decidissem não se matar - tibetanos, mesmo os ativistas dentro do Tibete, são surpreendentemente moderados na maioria dos casos e geralmente pragmáticos; por isso, mesmo um gesto simbólico por parte do Estado teria um impacto significativo. Por exemplo, o Partido poderia cessar a reeducação política
forçada e poderia parar sua campanha de demonização contra o Dalai Lama - políticas que não foram aplicadas no interior da China por décadas - e poderia regular a migração interna para o Tibete, como faz com Hong Kong. Se não o fizerem, as tensões aumentarão, e se mais pessoas forem mortas, as coisas poderão sair do controle e se tornar muito difíceis de resolver de forma significativa.

Foi relatado que nas últimas auto-imolações, mil pessoas cercaram o corpo para protegê-lo da polícia. Por que eles fazem isso?

Na cultura tibetana, quando alguém morre, o corpo deve ser perturbado tão pouco quanto possível logo após a morte. São realizados cerimônias e rituais especiais, na esperança de que a consciência se acalme, havendo assim uma melhor chance de um renascimento mais benéfico. Mas, como em qualquer religião, existem muitos níveis de explicação. Por exemplo, em geral, há uma visão que é importante dispor do corpo de forma adequada, como torná-lo alimento para aves ou peixes, uma vez que este é um tipo de generosidade, em lugar do método de cremação secular utilizado pelo Estado chinês. Neste caso, essas auto-imolações são claramente vistas pela comunidade local, não como um suicídio por um indivíduo desesperado, mas como um ato de dedicação para o benefício dos outros; por essa razão,  as pessoas locais querem demonstrar respeito à pessoa morta, assegurando que os rituais sejam efetuados pelo clero. Portanto, há muitos fatores, além dos objeções à confiscação do corpo pela polícia.
Tradução livre de Jeanne Pilli
http://asiasociety.org/blog/asia/interview-robert-barnett-why-tibetans-are-setting-themselves-fire

quinta-feira, 17 de novembro de 2011

Ponto de Vista: as auto-imolações no Tibete são uma conspiração ou um fracasso político?

Onze monges e monjas atearam fogo a sí próprios em locais de etnia tibetana da província de Sichuan este ano. Robert Barnett, da Universidade de Columbia avalia o que levou a estes incidentes e como China está escolhendo responder.
 
Respostas a protestos são basicamente de dois tipos. A primeira vê protestos como um estratagema ou conspiração para prejudicar o governo. A forma com que o governo chinês tem lidado
com as auto-imolações por tibetanos este ano tem sido até agora deste tipo, denunciando-as como "terrorismo disfarçado" e "ligadas às forças de independência do Tibete no exterior".

O governo chinês respondeu de forma similar aos protestos que se espalharam por todo o planalto tibetano, há três anos, e aos violentos protestos do povo Uighur no noroeste da China em 2009, em cada caso, acusando os líderes no exílio de fomentá-los.

A segunda abordagem é um modelo de fracasso das políticas, vendo os protestos como uma resposta a pressões excessivas colocado sobre as pessoas por um governo. Os governos ocidentais, que falaram sobre a auto-imolações têm visto por essa lente - os EUA pediram ao governo chinês para "tratar as políticas contra-producentes em áreas tibetanas".

Os líderes tibetanos no exílio têm uma visão semelhante: o Dalai Lama descreveu os atos como "tristes" e "drásticoss", como resultado de "algum tipo de política" imposta por "oficiais chineses linha-dura". O Karmapa, agora um líder religioso importante no exílio, pediu que as imolações cessem, mas descreveu-as como "um grito contra a injustiça e a repressão ...".

Educação Legal

Quais são as implicações dessas duas abordagens? A primeira leva a uma resposta relacionada a segurança. As cidades onde os protestos ocorreram tiveram aumentos significativos de tropas, quatro postos policiais estabelecidos nos principais monastérios envolvidos, e três monges condenados a penas de prisão de 10 a 13 anos por supostamente ajudarem um suicídio.

Tropas paramilitares impuseram bloqueios em dois dos monastérios onde ocorreram imolações este ano, em um caso cortando o abastecimento de comida e água por várias semanas, e que teria supostamente causado a morte de dois moradores que tentaram impedi-los de entrar no monastério. Em abril, 300 monges de um monastério foram levados para a "educação jurídica"; seus paradeiros ainda não estão claros. Tais respostas são contra-producentes, como já se tornou claro.

A abordagem da falha política trabalha para aumentar a pressão internacional sobre a China a mudar sua política no Tibete. Isso também pode ser problemático, já que qualquer crítica estrangeira não agrada a China. Mas há evidências de que mudanças políticas importantes há muito são necessárias no Tibete.

Isto é, algumas vezes, exagerado - não é de todo correto, por exemplo, que todas as áreas da cultura tibetana têm sido alvos de aniquilação pela China, como alguns exilados afirmam - mas é verdade que alguns setores da cultura e da comunidade são escolhidos para perseguição por parte do Estado, muitas vezes de formas que chocariama maioria dos chineses.

Isto é certamente verdade no caso dos monges e monjas. Quando eu estava baseado na Tibet University em Lhasa há seis anos, a chefe do nosso departamento exigiu que eu ordenasse meus alunos norte-americanoa a não se encontrarem com nenhum monge ou monja, porque, disse ela, "eles têm cérebros velhos" e, portanto, poderiam apoiar a independência do Tibete.

Assim, eles foram proibidos de entrar no campus sem autorização, muito menos no nosso prédio. Tal política continua em vigor. Não é apenas uma forma de perseguição, mas uma oportunidade perdida para a China, dada a contribuição 
histórica que os monges e monjas  fizeram à cultura e à educação tibetanas.

Naquela época, todos os estudantes tibetanos e funcionários do governo tibetano em Lhasa foi obrigados a não ter um altar, não praticar o budismo e não visitar momastérios. Essa política foi introduzida em 1996, e é, aparentemente, ainda vigente. Obscurecendo tudo isso está a exigência do governo de que as autoridades chinesas e a mídia insultem o exilado Dalai Lama em termos pessoais, uma política decidida em 1994 e ainda visível na maioria das edições dos jornais diários no Tibete, e atualmente também em Pequim.


Premeditado

No leste do Tibete monastérios onde ocorreram as imolações recentes, as pressões foram mais graves do que isso. Desde 2006, os gastos do governo por pessoa sobre a segurança nas áreas tibetanas, onde a imolações têm ocorrido foi 4,5 vezes maior do que nas
áreas vizinhas não-tibetanas e duplicou.

Isto sugere que
ocorreu um reforço de segurança nestas áreas, pelo menos, um ano antes do primeiro protesto importante ocorrer em 2008, provavelmente porque eles incluíram um dos maiores monastérios no planalto.
Para as autoridades chinesas, esta reação pode ser alimentada pela frustração de que o outro modelo parece não estar funcionando. Por 30 anos, muito dinheiro foi derramado em áreas de minorias para construir as suas economias e conter instabilidades, seguindo a teoria, também comum no Ocidente, de que a modernização reduz a fé religiosa e a identidade local. Em vez disso, o oposto aconteceu.
A abordagem da conspiração tenta explicá-los sem tratar o fracasso do modelo de modernização subjacente.

Mas, na verdade, há uma evidência de que um protesto foi planejado: o governo chinês prendeu dois monges tibetanos em agosto por enviarem fotografias para o exílio de um companheiro monge três dias antes de ele se por em chamas, assim "provando que a auto-imolação foi premeditada", de acordo com a Xinhua, agência de notícias oficial da China.

Mas não foi produzida nenhuma outra evidência de um plano pelo governo chinês, exceto comentários de que suicídio é contra os princípios budistas. É verdade que auto-imolácão política era inédita no Tibete até 2009, e que o Budismo considera o suicídio extremamente prejudicial ao indivíduo.

Mas como na maioria das religiões, igualmente considera-se que o auto-sacrifício em benefício da coletividade é a forma mais elevada de virtude. A forma mais famosa de todas as histórias sobre as vidas anteriores do Buda, conhecida como stag mo lus 'byin em tibetano, descreve-o deitando-se na frente de uma leoa que estava morrendo para que ele se alimentasse do seu corpo para que pudesse amamentar seus filhotes. E, infelizmente, suicídios como resultado de políticas intoleráveis têm sido comuns no Tibete nas últimas décadas. O que mudou este ano é que os suicídios políticos no Tibete agora são realizados em público.


Fundos para monges

Mas no complexo mundo da política chinesa, a decisão do governo de não  produzir mais provas de uma conspiração pode indicar uma silenciosa mudança na sua abordagem.

Talvez os líderes só queiram evitar chamar mais atenção para a China por estas mortes terríveis, que desencadeou uma onda de indignação angustiada entre os
outros tibetanos no Tibete, a julgar a partir de poemas codificados e observações constantes na internet. Mas eles também podem estar começando a olhar para as questões políticas.

Os sinais são pequenos e ambíguos, mas interessantes. No mês passado, um estudioso chinês, um ex-funcionário, disse em uma reunião em Nova York que as imolações têm "causas subjacentes e devemos estudá-las seriamente".

No final de outubro, um escritório do governo no Tibete teria sido destruído por uma bomba, mas nenhum relatório foi publicado na imprensa chinesa, geralmente muito ansiosa para ligar os tibetanos à violência ou terrorismo.

Em agosto, um novo líder chinês foi nomeado no Tibete, com formação em economia e não em "manipulação" das minorias, e ele foi bem recebido ao garantir que todos os graduados este ano nas univesidades no Tibete terão emprego.

E esta semana ele anunciou monges em todos os monastérios receberão "a pensão, seguro médico e os subsídios de vida mínimos".

É muito cedo para dizer que esta é ou não é uma mudança para um modelo que reconhece o fracasso da política ou um retorno à teoria da modernização - fornecendo fundos estatais a uma crise cultural e política, na crença de que a riqueza substitui a religião e o nacionalismo.

De qualquer forma, dada a deterioração de décadas da relação Estado-sociedade no Tibete, os líderes chineses terão de decidir se tratarão protestos e suicídios como conspirações ou como sinais de que as políticas fundamentais precisam ser revistas.

Robert Barnett é Diretor do Programa de Estudos Modernos Tibetanos e Professor Adjunto na Universidade de Columbia, Nova York.

http://www.bbc.co.uk/news/world-asia-15738522

Tradução livre de Jeanne Pilli
 

domingo, 16 de outubro de 2011

Entrelinhas: interpretando a Declaração do Dalai Lama sobre sua sucessão

Introdução

No dia 24 de setembro, após uma reunião de líderes das principais escolas do Budismo Tibetano em Dharamsala, norte da Índia, o Dalai Lama publicou uma declaração de 4.000 palavras em tibetano e em inglês intitulada “Declaração de Sua Santidade o Décimo Quarto Dalai Lama, Tenzin Gyatso, sobre a Questão de Sua Reencarnação”.   
O documento – texto completo no link www.bodisatva.com.br/declaracao-de-ss-o-dalai-lama/ - utiliza conceitos e termos tibetanos que podem confundir, e o que é mais interessante sobre ele é que não trata apenas da reencarnação do Dalai Lama: é sobre sua sucessão, que entendemos ser algo bem diferente. Portanto nesta nota eu tentei delinear algumas das implicações práticas que parecem estar por trás desta declaração.
A Declaração é em grande parte uma resposta a um documento legal promulgado pelas autoridades chinesas em 2007 que declara que apenas o governo chinês está autorizado a decidir quem é ou não é a reencarnação de um lama. Tal regulamentação deu exclusivamente a Pequim a autoridade de escolher o próximo Dalai Lama e assim preparou o palco para uma enorme disputa para quando o atual morrer. A Declaração do Dalai Lama, que descreve a reivindicação chinesa como "ultrajante e vergonhosa", estabelece uma clara posição sobre essa questão.
A declaração também diz respeito a sua decisão, no início deste ano, de por fim ao sistema "Ganden Phodrang", o nome dado ao sistema de governo no Tibete liderado pelos Dalai Lamas desde 1642, que continuou no exílio a partir 1959. No passado, esse governo teve um papel importante na supervisão da seleção de cada Dalai Lama, mas a partir de maio deste ano, o termo "Ganden Phodrang" agora se refere apenas ao escritório ou residência do Dalai Lama, que gerencia os assuntos de sua linhagem. A declaração aborda o futuro papel desta instituição, que agora envolve em grande medida uma figura religiosa distinta do governante tibetano. Mas na prática, a declaração é de importância muito maior, porque o Dalai Lama continua a ser  simbolicamente o coração da nação tibetana. Sua habilidade em organizar uma sucessão suave é de muito mais importante para as pessoas do Tibete, e, portanto, para os formuladores de políticas chineses, do que é o governo tibetano.
O fato de o anúncio ter sido feito logo após um encontro com os líderes religiosos tibetanos de todas as escolas também tem uma importante implicação: sugere que o Dalai Lama buscou um acordo entre todos os líderes religiosos do Budismo Tibetano para o novo sistema de sucessão. O Dalai Lama pode estar realinhando discretamente o papel de futuros Dalai Lamas para torná-los menos estreitamente identificados com sua própria escola ou facção, a dos Gelugpas. Isso reflete o esforço do Dalai Lama durante várias décadas de contrapor o forte sectarismo entre budistas tibetanos, que é também frequentemente encontrado entre seguidores ocidentais.


A Seleção do Próximo Dalai Lama

Uma das principais mensagens da Declaração de 24 de setembro é que apenas o Dalai Lama ou os gestores da sua linhagem podem decidir seu sucessor e o método de seleção. Conforme esperado, afirma categoricamente que o sucessor não pode ser escolhido “por ninguém, incluindo a República Popular da China, que não seja o Dalai Lama ou aqueles por ele determinados como autoridades de sua linhagem”. Ele acrescenta que os detalhes do processo de escolha do sucessor do Dalai Lama serão anunciados em aproximadamente 14 anos, quando o Dalai Lama tiver cerca de 90 anos. E assim discute apenas os prováveis métodos, não a identidade da pessoa que será escolhida. Este movimento parece destinado a transmitir a confiança do Dalai Lama sobre as perspectivas de longo prazo para implementação de uma sucessão bem sucedida, e dá tempo de sobra para os tibetanos se familiarizarem com o novo processo que ele está propondo.
Na Introdução, a declaração analisa o papel do renascimento no pensamento budista e argumenta que isso se baseia num raciocínio lógico, não em fé. Discute também o importante papel da reencarnação de lamas nas tradições tibetanas. Mas na verdade, a maior parte da declaração não é sobre reencarnação. Em vez disso, é um anúncio cuidadosamente redigido sobre a necessidade de modificar o sistema de reencarnação, se não substituí-lo, ao menos em alguns casos.
Isso se torna mais claro na parte final da declaração, onde são listados três processos de escolha que serão possivelmente usadas para identificar o sucessor do Dalai Lama. Nenhum dos três processos envolve a reencarnação como é usualmente entendida – a prática de realizar uma série de adivinhações, consultas a oráculos e testes, por três ou mais anos após a morte do lama, para identificar uma criança como sua reencarnação. Ao invés disso, os três métodos discutidos no documento referem-se a emanações (sprul ba) e não a reencarnações. Em tibetano, a diferença entre os dois é muito mais sutil do que em inglês: ambos referem-se a uma “manifestação” da mente ou das qualidades de um lama. A reencarnação (sprul sku) é uma manifestação que surge mais tardiamente como um corpo separado, enquanto uma emanação (sprul ba) é tal que pode ser de qualquer tipo – até mesmo a realização do significado de um ensinamento ou ideia particular é considerada uma forma de manifestação pelo lama. Ao longo dos séculos, muitos lamas no Tibete têm sido reconhecidos como emanações de uma forma particular do Buda ou de um lama do passado especialmente conhecido – em geral alguém que viveu há muitos séculos. É uma pessoa que corporifica ou reflete as qualidades daquela forma do Buda ou lama, mas não a mesma pessoa. Poder-se-ia dizer que uma emanação é como uma imagem no espelho ou um reflexo de um lama particular, enquanto a reencarnação é o elo seguinte em sua cadeia de vidas. Mas não havia uma forma específica para identificar uma emanação e tal reconhecimento não era geralmente um procedimento formal de apontar um sucessor. A maior parte daqueles considerados emanações eram também reconhecidos anteriormente em suas vidas como importantes reencarnações e, portanto suas posições e status já eram claros.
Na nova declaração uma emanação é definida , no contexto de identificar um sucessor, como alguém vivo e identificado antes da morte do lama predecessor. A declaração lista três formas pelas quais uma emanação pode ser reconhecida, das quais a primeira é quando a pessoa é vista como tendo o mesmo “fluxo mental” (rgyud chig pa) do lama mais idoso. Este é um termo altamente técnico que significa que a realização espiritual da pessoa é de um nível tão avançado que efetivamente há uma unidade com a consciência do lama. Este processo já é conhecido por outro nome: é equivalente à rara mas bem conhecida prática de reconhecer alguém como um “ma-ndey trulku” (ma-’das sprul sku), uma pessoa reconhecida como uma reencarnação antes da morte do predecessor.
O segundo e o terceiro métodos de seleção parecem novos. Um é para o caso de uma pessoa ser reconhecida como uma emanação com base em seu estreito contato pessoal com o lama ou com o trabalho ou objetivos da vida do lama (“conexão pelo poder do carma e preces”). Este parece se destinar a permitir uma gama relativamente ampla de escolhas e qualificações na busca por um sucessor. O último método é reconhecer uma pessoa como aquela que “veio como resultado de bênçãos e nomeação”. Este parece permitir que uma pessoa seja apontada como uma emanação ainda que não tenha trabalhado com o lama prévio, e o texto menciona especificamente que pode permitir que um “discípulo ou alguém jovem” seja apontado.
A declaração indica, portanto, se cuidadosamente lida, que é mais do que provável que o Dalai Lama seja sucedido por uma emanação, não necessariamente por uma criança reencarnada. É possível que as duas formas possam acontecer: em primeiro lugar uma emanação, e então, alguns anos mais tarde, uma reencarnação também. Mas isso não está explicitamente declarado. A possibilidade de um sucessor por emanação é uma inovação, se incluir alguém escolhido por nomeação. Se for usado um sistema de emanação, então mais provavelmente o sucessor será identificado antes da morte do atual Dalai Lama, e provavelmente será uma pessoa adulta ou jovem, e não uma criança.


Múltiplos Sucessores

Dois detalhes importantes destacam-se na declaração. O primeiro parece ser uma confirmação de que uma emanação pode ser nomeada sem que seja afirmado que ela possui um nível de realização idêntica à do Dalai Lama:
"Uma vez que estas opções são possíveis no caso de um ser comum, é viável uma emanação antes da morte que não tenha o mesmo fluxo mental ".
Isto confirma que uma emanação pode ser nomeada pelo Dalai Lama, ou pode ser nomeada pelas autoridades da linhagem em função de qualidades especiais do sucessor, como a conexão dele (ou, em teoria, dela) com Sua Santidade, sem ser reconhecido como tendo alcançado o mesmo fluxo mental que o Dalai Lama.

O segundo ponto permite que mais de uma emanação:
"Em alguns casos, um Lama realizado pode ter várias reencarnações, simultaneamente, como encarnações do corpo, fala e mente e assim por diante."

Esta é uma característica bem conhecida do sistema tibetano e é bastante comum com lamas realizados, mas nunca aconteceu com um Dalai Lama antes, já que até este ano eles eram também os detentores do trono do estado tibetano; assim, haver mais de um requerente ao cargo político teria sido problemático. Como o papel político do Dalai Lama foi eliminado, esse não é mais o caso.


As Autoridades da Linhagem

Um terceiro ponto é mencionado incidentalmente e é inteiramente novo: a identidade das autoridades da linhagem está especificada. As autoridades da linhagem, ou gestores, para a maioria das lamas são a equipe e monges de sua "Labrang" ou residência privada, por vezes referida como uma propriedade. É sempre este escritório que tem a responsabilidade por buscar uma reencarnação. Mas com o Dalai Lama, o trabalho era compartilhado com o governo tibetano, como já vimos. Agora, a declaração deixa claro, que o governo tibetano não terá mais a responsabilidade de gerir a linhagem do Dalai Lama ou executar o processo de sucessão. Em vez disso, na ausência de um Dalai Lama, a gestão de sua linhagem vai estar nas mãos do "Phodrang Gaden Trust", um órgão previamente desconhecido, que parece ter sido recentemente constituído e localizado dentro do Gabinete Privado em Dharamsala . Os oficiais que irão gerir esse “trust”, e assim o que é efetivamente o Labrang, não foram nomeados, embora haja alguma especulação de que pode incluir o antigo primeiro-ministro do governo de exílio, Samdong Rinpoche, que recentemente assumiu uma posição no Gabinete.

O comunicado também diz que os funcionários do Phodrang Gaden Trust irão consultar, no futuro, os chefes das escolas budistas tibetanas e os principais oráculos. Os oráculos relevantes sempre estiveram envolvidos em tais decisões, mas o envolvimento de todos os líderes das escolas do budismo tibetano é novo, pelo que sei. O processo de tomada de decisão é, assim, separado - pelo menos em princípio - do governo tibetano e nenhum status especial é dado à escola Gelugpa. Esta poderia ser uma mudança histórica significativa, uma vez que, embora alguns dos Dalai Lamas tenham assumido e defendido práticas de outras escolas, no passado sua linhagem foi fortemente associada à ortodoxia Gelugpa. Agora parece indicada uma abordagem mais ecumênica ou não-sectária.


Conclusão

Em resumo, a declaração indica que um sistema de emanação será mais provávelmente usado para selecionar o sucessor do atual Dalai Lama, ao invés de, ou adicionalmente a um sistema de reencarnação. O povo tibetano está claramente sendo preparado para este desfecho. O conceito de emanação já é bem conhecido no budismo tibetano, com muitos lamas realizados também considerados emanações. Mas é raro, senão único, que o reconhecimento de uma emanação seja usado como um sistema de sucessão formal.
Há um benefício óbvio para os tibetanos em usar um sistema de emanação. Uma vez que significa que o sucessor seria provavelmente uma pessoa adulta ou jovem, e que provavelmente seria reconhecido antes da morte do atual Dalai Lama, o grande inconveniente de um sistema de reencarnação poderia ser evitado: os 20 anos ou mais que são necessários para encontrar e treinar um sucessor. No passado, os tibetanos tentaram resolver o problema nomeando um regente interino, mas isso quase sempre falhou porque os regentes eram vistos como fracos, propensos à corrupção, e com pouca de autoridade, embora quase todos eles fossem "Hutuktu”, ou reencarnações do mais alto nível de realização. Este foi um fator importante de fragilidade do Estado Tibetano histórico. Esperava-se que o atual Dalai Lama tentaria dar uma nova solução para esse problema, e a declaração é claramente isso.
No entanto, há séculos o povo tibetano não é liderado por uma pessoa que é uma emanação, mas que não é também uma reencarnação de alta patente, e alguns tibetanos manifestaram desconforto com a perspectiva de seguir um líder religioso ou simbólico que tem apenas o status de emanação. Pela primeira vez em mais de três séculos, o sucessor do Dalai Lama não terá nenhuma obrigação política, mas ainda pode ser difícil para seu sucessor sustentar o apoio popular, sem ser uma reencarnação.
A declaração, portanto, reflete muitas considerações práticas. Principalmente, parece destinada a permitir que o Dalai Lama e os gestores de sua linhagem disponham de uma gama de possibilidades viáveis ​​quando eles vierem a fazer sua escolha. Por exemplo, enquanto demonstra que não há necessidade de aguardar a descoberta de uma reencarnação, deixa em aberto a possibilidade de que se uma criança for encontrada, ele ou ela possa assumir o lugar de sucessor emanado uma vez que ele ou ela atinja a maturidade. Mas está enraizado no costume tibetano e tem sido apresentado de uma forma tradicional, o que pode ser eficaz para conquistar a aceitação do novo sistema pelo povo tibetano; porem o verdadeiro teste virá somente depois que o atual Dalai Lama morrer.
A iniciativa do Dalai Lama é uma rejeição completa à posição assumida pelas autoridades chinesas atuais. Em contrapartida já foi rejeitada pelos chineses, como um abuso de "convenções históricas, bem como leis e regulamentos", acrescentando que "não há tal prática de um Dalai vivo designar o seu próprio sucessor" e acusando-o de "lavagem cerebral política", um "esquema político e motivos maliciosos". No entanto, não existem leis ou regulamentos tibetanos conhecidos sobre os sistemas de sucessão. Em vez disso, a tradição budista tibetana sempre contou com as habilidades de seus lamas na sua capacidade de adaptar as práticas habituais. A iniciativa de 24 de setembro é um exemplo de tal adaptação, envolvendo elementos da tradição budista tibetana importantes, mas negligenciados, emoldurados de forma pragmática para lidar com a fragilidade fundamental do sistema de reencarnação. No geral, ele representa um exemplo do esforço em curso do Dalai Lama ao longo de sua carreira para ajustar tradições religiosas e culturais de forma a atender às condições contemporâneas.

http://www.thechinabeat.org/?p=3873